O legado de Irany Novah Moraes

Artigo publicado no Jornal da USP 13 a 19 agosto de 2007
Professor da Faculdade de Medicina que morreu na semana retrasada deixa uma vasta folha de serviços prestados à USP e à medicina no Brasil...leia mais

O legado de Irany Novah Moraes
Professor da Faculdade de Medicina que morreu na semana retrasada deixa uma vasta folha de serviços prestados à USP e à medicina no Brasil

O professor Irany Novah Moraes, da Faculdade de Medicina da USP, morreu no dia 1º de agosto, aos 80 anos de idade. Seu currículo, que pode ser lido na página eletrônica do professor, dá uma boa idéia da longa folha de serviços prestados por Moraes à Universidade e à medicina no Brasil. Formado em Medicina pela USP, ele se doutorou na mesma instituição com tese na área de anatomia e se tornou livre-docente em Clínica Cirúrgica. Bolsista do governo francês na França, da Capes nos Estados Unidos e da Fundação Von Humboldt na Alemanha, foi professor titular de Cirurgia Vascular da Faculdade de Medicina da USP, lecionou Metodização da Pesquisa Científica na Escola de Educação Física e Esporte da USP, chefiou o Laboratório de Investigação Clínica em Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenou o curso de pós-graduação em Medicina do Hospital Jaraguá, também na capital paulista. Foi médico legista em São Paulo.

Irany Moraes lançou 29 livros. Entre eles está o Tratado de clínica cirúrgica, um monumental trabalho publicado em dois volumes pela Editora Roca em 2005, com 2.472 páginas, que contou com a colaboração de 335 especialistas. Dividido em 19 seções, o tratado aborda os mais variados temas ligados à clínica cirúrgica, como fisiologia, diagnóstico, pesquisa científica, epidemiologia, estatística e cuidados no pré e pós-operatório.

Outros livros de Moraes são Conforto da medicação (2004), Longevidade (2004), Erro médico e a justiça (2003), Sexologia (1998), Formação do médico (1997) e O mal da saúde no Brasil (1995). Ele é autor ainda de Atlas da aterosclerose (1991), Estratégia do diagnóstico vascular (1991) e Residente de cirurgia – livro em co-autoria que venceu o Prêmio Jabuti de 1993, na categoria Melhor Livro de Ciências Naturais e Medicina. O professor publicou ainda 185 capítulos de livros e 121 artigos em revistas médicas nacionais e estrangeiras, além de 210 artigos no Jornal da USP, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo. Era diretor responsável da revista virtual Cultura & Saúde.

Entre seus feitos mais notáveis está a realização do primeiro transplante de rim em hospital particular do Brasil, em 1968. Nesse ano, ele organizou com o nefrologista Roland Véras Saldanha o Grupo de Transplante do Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Esse grupo realizou 12 transplantes, obtendo um tempo de sobrevida de dois a seis anos, considerado “muito bom” para a época. Em 1966 e 1967, Moraes fez o Planejamento Operacional da Unidade Integrada de Saúde de Sobradinho, no Distrito Federal, que passou a ser usada pela Universidade de Brasília (UnB) como hospital-escola.

Irany Moraes: vida de serviço

Entrevista – Numa entrevista recente que concedeu à Revista Vascular In, o professor preferiu citar, como o grande legado que deixa às várias gerações que formou, a sua atividade didática. Ele disse: “Não sei se é grande (o legado), mas ensinei uma geração a elaborar dissertação de mestrado, tese de doutoramento e até de livre-docência. Mantive um curso de metodologia científica por 14 anos na pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP. Os alunos de todas as disciplinas de pós eram encaminhados pelos orientadores a fazer essa disciplina. Houve anos em que os candidatos eram tantos que se tornou necessário desdobrar a turma”.

Na mesma entrevista, Irany Moraes deixou um alerta para os jovens médicos. “Que tomem atenção para três pontos fundamentais”, ele lembrou, professoralmente. “Primeiro: a velociade da informação, o progresso do mundo globalizado gera tal quantidade de conhecimento que torna cada vez menor o tempo de vida médio da verdade científica. Assim, há de se aprender a raciocinar com dados em evolução. Segundo: como não se pode ensinar ‘bom senso’, acredito que o crescente número de reclamações de erro médico na Justiça sensibilize o jovem a ter prudência e não cair nas armadilhas que o destino coloca no caminho do exercício profissional. Ele deve só fazer o que sabe e não improvisar. Terceiro: a competência e a ética serão a garantia do êxito profissional.”

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